5 fotos, 5 histórias: Bernardo Guerreiro
Um percurso visual entre perspectiva, encontros, memória, afeto, luta e pertencimento
Natural de Porto Velho, em Rondônia, Bernardo Guerreiro construiu sua trajetória com a câmera apontada para onde a história está acontecendo. Dos movimentos sociais às mobilizações políticas e culturais, ele fez da fotografia uma ferramenta de testemunho e presença. Sua imagem parte de dentro, de quem está no meio da ação, dividindo o mesmo chão e assumindo posição diante do que vê.
Há mais de uma década vivendo no eixo Rio São Paulo, Bernardo disputa narrativa em um território historicamente concentrador de visibilidade e mercado. Mesmo vindo de fora do centro tradicional de poder, imprimiu sua perspectiva na cena comercial e editorial, tensionando olhares e ampliando repertórios. Especialmente para a série 5 fotos, 5 histórias, ele revisita cinco imagens que ajudam a entender não apenas sua trajetória, mas também os contextos que atravessam seu trabalho, fotografias que funcionam como memória viva e como gesto político.
A partir daqui, Bernardo conta, em primeira pessoa, as histórias por trás de cada uma das fotos escolhidas.
Escolhi essa fotografia porque ela me atravessa muito. Ela nasce em 2014, durante a Copa do Mundo no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, num período em que eu estava profundamente imerso no fotojornalismo, fazendo exatamente aquilo que eu queria fazer. A cena acontece na praia de Copacabana, em meio a um jogo tenso entre Brasil e Colômbia. Desde então, essa imagem carrega uma inquietação silenciosa: quem a vê quase sempre me pergunta o que aquelas pessoas estão olhando. E talvez essa seja a pergunta mais importante que a fotografia propõe.
O futebol, por si só, é algo maravilhoso, mas ali ele revela outra camada: a capacidade de suspender o tempo. Diante de um jogo da seleção, corpos paralisam, olhares se fixam, a paisagem se dissolve e uma multidão passa a existir como um único organismo atento, concentrado, entregue. Essa fotografia tenta guardar esse instante raro em que uma nação inteira prende a respiração ao mesmo tempo.
Esta fotografia completa agora dez anos. Ela registra uma cena que muitos reconhecem, mas sob uma variação quase nunca vista, um olhar íntimo de uma amiga. Diferente das imagens que se tornaram símbolo, aqui Marielle olha direto para o centro da lente, como se atravessasse a câmera e encontrasse o meu olhar. E é um olhar leve, carregado de riso, de ironia boa, de brincadeira solta. Um instante de alegria verdadeira, sem defesa. Marielle em suas cores, em sua luz, e completa em sua presença. Para mim, essa imagem guarda não apenas um retrato, mas uma presença — alguém que foi profundamente importante na vida de muitos, e para mim também. Muito difícil foi lidar com o peso e relevância dessa imagem a partir do fato de ela ter se tornado histórica por seu covarde e violento assassinato.
Escolhi essa fotografia porque ela ocupa um lugar central na minha história. Mas revisitá-la é sempre um gesto ambíguo: junto da beleza, vem o peso. A lembrança de que Marielle foi arrancada de nós por um ato brutal e que ainda está impune. Um crime que marcou uma década e deixou uma ferida aberta no país. Ainda assim, nessa imagem, ela permanece viva — rindo, olhando de frente, afirmando sua existência. E talvez seja isso que mais importa: que a memória dela continue sendo também memória de luz.
Acredito que a nossa sociedade precisa assumir, de maneira inegociável, uma postura antimachista, antirracista e antihomofóbica. Esta fotografia sintetiza, para mim, o que muitas vezes se configura como uma luta solitária diante de estruturas muito dominantes. Ao observá-la, vemos mais do que um confronto pontual: vemos o retrato de uma injustiça social ampla, quase estrutural. Há nela um desequilíbrio evidente entre a força e a resistência, entre aparato institucional e corpo civil. A imagem tensiona o próprio entendimento de humanidade. Quem é reconhecido como sujeito de direitos e quem é rapidamente enquadrado como ameaça, como inimigo público, a partir de uma lógica distorcida e militarizada da ordem.
Na fotografia, feita em 2014 durante os atos do “Não Vai Ter Copa”, vemos uma mulher — à época conhecida como Russa — encurralada por dezenas de policiais, como se representasse um perigo iminente, quase terrorista. Mas essa não era a realidade. O que a imagem revela é o descompasso entre a reação do Estado e a dimensão real do indivíduo. Para mim, ela simboliza o risco de uma sociedade que se acostuma ao excesso, que naturaliza a desproporção e que, ao não se posicionar firmemente diante das injustiças cotidianas, permite que o caos se instale como método. É um retrato duro, mas necessário — um chamado à responsabilidade coletiva.
Em 2024, tive a honra de cocriar com a agência Dabba, com Tiago Moraes, Fernanda Masini, Gustavo Felipe (o Gusta), Maia, e esse momento foi mais do que desenvolver uma campanha: foi a oportunidade de imprimir minha linguagem documental em um encontro raro. A proposta reunia skatistas amadores e profissionais do time da marca Converse, com nomes potentes do rap e do trap, como Matuê e Yunk Vino. Mas, para além dos nomes, o que realmente construímos foi uma atmosfera — um espaço onde imagem, música e rua se encontraram com sinceridade.
Essa fotografia carrega exatamente essa vibração. Ela sintetiza a energia que provocamos: um ambiente onde todos puderam estar à vontade, do movimento underground brasileiro e também grandes artistas, numa troca viva e representativa. Para mim, foi uma honra criar ao lado de pessoas que admiro — músicos, designers, diretores criativos, amigos que confiaram no meu olhar. Foi um trabalho que fluiu, que gerou resultado, mas, acima de tudo, que deixou memória. Uma campanha de sucesso, sim — mas principalmente um encontro que fez sentido.
Esta fotografia passa a ganhar outra dimensão depois de uma noite histórica no Globo de Ouro, marcada pela vitória inédita de dois prêmios para O Agente Secreto, consagrando o talento de Wagner Moura e do diretor recifense Kleber Mendonça Filho. Para mim, essa imagem não fala apenas de reconhecimento internacional, mas de pertencimento. De fazer parte do cinema brasileiro, da cultura brasileira, e de testemunhar um time extraordinário escrevendo seu nome na história. Há algo de maior ali: a defesa da memória — uma memória que não pode ser apagada, que insiste em permanecer como gesto político e artístico.
O retrato que escolhi, feito em 2017, no aniversário de Wagner, ao lado de sua família, carrega essa camada íntima que o tempo só amplia. Antes do prêmio, antes desse palco de Oscars e Globos de Ouro, já existia Wagner: sensível, generoso, atento ao mundo à sua volta. Alguém que tive a honra de conhecer de perto e chamar de amigo. Revisitar essa imagem hoje é entender que as falas, os posicionamentos, as escolhas e as trocas da vida importam — e muito. Porque quando a arte encontra coragem, o que se celebra não é apenas um troféu, mas a permanência de valores que atravessam a história.