5 fotos, 5 histórias: Alex Batista
Cinco imagens que atravessam duas décadas de carreira entre fotografia autoral, editoriais e campanhas
Na fotografia, muitas vezes uma imagem nasce de outra. Um encontro leva a um novo trabalho, que por sua vez abre portas para lugares, pessoas e histórias inesperadas. Quando olhamos para a trajetória de um fotógrafo ao longo dos anos, esse encadeamento se revela quase como um mapa invisível da própria vida.
O paulistano Alex Batista construiu sua carreira justamente nesse fluxo. Depois de anos trabalhando como assistente em estúdios de moda e publicidade, passou a desenvolver uma produção que atravessa editoriais, campanhas e projetos autorais, colaborando com marcas como Nike, Piet, Melissa, Converse e Coca-Cola, além de publicar em revistas como Vogue, GQ, FFW, Wallpaper, Trip e TPM. Paralelamente aos trabalhos comerciais, Alex mantém um olhar atento para a cidade e para as pessoas que encontra pelo caminho, uma sensibilidade que aparece com força em suas séries autorais, algumas delas já exibidas em galerias de arte e festivais no Brasil e ao redor do mundo.
Para a série 5 Fotos, 5 Histórias, convidamos Alex a revisitar cinco imagens que ajudam a contar um pouco desse percurso. Entre fotografia de rua, retratos marcantes e trabalhos que mudaram os rumos da sua carreira, ele compartilha as histórias por trás de cada clique. A partir daqui, a palavra é dele.

Queria começar com essa, que é uma das imagens que compõem a minha série autoral mais antiga, chamada “Fotografia de Rua”. Essa série foi iniciada espontaneamente, com o único desejo de fotografar o que estava ali em frente aos meus olhos, quase como um diário. Uma coleção de imagens que fazia entre o trajeto de casa para o trabalho ou para qualquer lugar que poderia estar me deslocando. Sempre andava com uma câmera na bolsa e ia registrando tudo que me cruzava e despertava interesse. Sempre gostei de estar na rua e, com o passar dos anos, fui acumulando muitas outras fotografias, quase uma obsessão.
Essa, em questão, é de 2014, sem título. Gosto muito desta, pois ela contém muitos símbolos que sempre gravitam sobre o meu trabalho. Aqui, em especial, esse reboco que me lembra os gestos de uma pintura do Cy Twombly ou a estrutura do Fabio Miguez, de quem sou muito fã.

Fui assistente de outros fotógrafos de moda e publicidade por muitos anos, naturalmente quis iniciar minha própria carreira, então disparava telefonemas e emails para todas as revistas e agências na época.
Uma das editoras que me retornaram foi a Trip, que publicava a revista homônima e a revista TPM, entre muitos outros títulos de revistas customizadas. Consegui convencer a diretora de criação da época de que era uma boa ideia ela me receber, mal ela sabia que eu não tinha muitas imagens para mostrar, a não ser alguns poucos retratos e um monte de fotos autorais estranhas da cidade.
O papo foi bom e eles começaram a comissionar alguns retratos para as revistas, eles ficaram me testando com algumas pequenas pautas antes de confiarem no meu primeiro editorial de moda. Foi muito legal ver o editorial publicado nas páginas da revista que comprava quando era adolescente na banca da porta da minha escola. Um ciclo que, ao mesmo tempo que se fechava, iniciava-se outro naquele ano de 2012.

Depois de ser publicado ou compartilhar uma foto na internet, a gente perde um pouco o controle de quem tem acesso às fotografias que a gente cria. Em algum momento do mesmo 2012, uma diretora de criação da Nike viu as imagens e pensou que muitas pareciam uma grande pesquisa de locação e que a única coisa que faltava para ela era inserir um atleta ali no meio correndo.
E é assim que, de uma fotografia, vamos para outra. Esse retrato da Ana Cláudia Lemos foi a primeira imagem que fiz para um trabalho com a Nike, era uma campanha com alguns atletas (inclusive um Neymar Jr. que estava quase deixando a Vila Belmiro para se mudar para a Espanha) para a linha Sportswear e que teria mídia global. Eu havia deixado de ser assistente fixo em um estúdio de publicidade em 2009 e, desde então, estava tentando dar início à minha carreira, mas foi a partir desse trabalho que consegui me organizar melhor.
Após essa campanha, fiz muitos outros trabalhos com a marca. Tenho para mim que nenhum outro cliente contribuiu tanto para minha experiência como fotógrafo quanto eles, aprendi muito com os desafios técnicos e a como organizar o meu estúdio, de acordo com o que uma marca com presença internacional espera de um fornecedor.

Depois de entrar no mundo da marca de tênis internacional, acabei conhecendo muitos colecionadores de tênis e me inteirando sobre um assunto que olhava com mais distância.
Um dos colecionadores foi o Pedro Andrade, da Piet, para quem fotografei todas as campanhas dos primeiros anos da sua marca. Foi um período muito divertido de co-criação de imagens. Minhas sugestões eram todas ouvidas, fotografamos do estúdio até as ruas em Nova Iorque. Essa é uma das imagens que fiz para a campanha de 2018. Gosto muito do resultado final.

Como a roda volta para o mesmo lugar, finalizo com esse retrato da Clara Charf, companheira de Carlos Marighella, feito em 2012. Essa foto é uma grande lembrança de como sou privilegiado em ter a minha profissão, que usa a câmera como desculpa para entrar em todos os lugares possíveis.
Ela me recebeu na sua casa no Bom Retiro. Quando entrei pela porta, já havia um bolo e um cafezinho me esperando, além de muitas histórias dela e do seu companheiro pelo Brasil e por outros países da América Latina, uma vida vivida intensamente.
Infelizmente, ela faleceu no segundo semestre de 2025. Vou sempre me recordar de duas coisas, a primeira foi quando ela falou que enquanto estava exilada em Cuba nunca sorria, pois o falecido marido disse que o sorriso dela era muito característico e iriam reconhecê-la pelas ruas. A segunda foi um livro que ela me presenteou com a história do marido, que ela deixou em minha guarda.
Esse ano, 2026, faz vinte anos que vivo de fotografia em fotografia e sou levado às pessoas e lugares que nunca imaginei conhecer ou estar. Às vezes parece ser um grande delírio viver de fotografia no Brasil, mas, por enquanto, felizmente, tem sido verdade.